O canto do homem triste
O homem triste acordou da ilusão da viagem a dois. Caminha com um saco cheio de ontem e sente-se triste.
Como os pescadores se perdem no mar atrás do canto das sereias - o canto dos defuntos - o homem triste perde-se para lá do horizonte, atrás do medo da certeza de estar só.
O canto do homem triste não tem fronteiras, não tem espaço a medir, não tem paredes para ricochetear respostas e fingir alguém que não está.
Viaja e as viagens dão-lhe a companhia da desculpa de estar só por opção. Vive experiências de beleza única e caminha com a graça da independência, cheio de uma riqueza não palpável. Mas o homem triste está preso para lá do horizonte e vive na corrente de ar que foge das portas e das janelas dos outros.
O homem triste está só.

texto e ilustração: Gonçalo Cunha de Sá


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