Monday, October 30, 2006

No Clube dos Jornalistas

Na mesa ao lado discutia-se o “amor”, as relações entre os casais, um casal amigo que se tinha recentemente divorciado. Era um grupo de dez, talvez doze elementos, homens e mulheres. Quem diria, a Maria e o José, aquele casal exemplar, a inveja de todos! Ao que parece estavam juntos há anos, antes ainda de se conhecerem. Aquelas pessoas que podíamos jurar que ficariam juntas para sempre. Enganaram-se simplesmente.
Estávamos a jantar no Clube dos Jornalistas, um peixe muito branco com um daqueles nomes difíceis de decorar. Sabe a Safio, concordamos. Chamaste-me playboy. Na altura senti que contigo seria diferente, por isso tive medo. Tu pelo teu lado não querias acreditar que podia gostar de ti. Na realidade tive medo de vir a perceber que poderia ser mais uma conquista. Agora é tarde, não é? Deixámos a resposta no ar. Somos melhores amigos. Não podemos alterar o passado mas podemos viver melhor o presente.
Nunca me perguntaste pelo meu namorado, disseste.
Tens razão, desculpa. Tens fotografias?
Sim, deixa ver... Ah... neste não está lá muito bem mas...
Não faz mal, mostra. Também não te vou dizer o que acho. Não sou de apreciar homens.
Depois tirámos uma fotografia os dois e rimos. Aprendemos a ler os silêncios um do outro, os risos, as meias palavras. Partilhamos uma cumplicidade que não precisa de palavras e trocamos carinhos com o olhar.
Na mesa ao lado contavam mais histórias de amor, tristes. A mulher morreu eram ainda muito novos, casados há meia dúzia de anos. Ele amava-a tanto tanto que nunca mais teve mulher nenhuma. Que romântico, exclamaram uns. Gostava de ser amada assim, com essa intensidade, disse outra. Isso é que é ser romântico, exclamou a mulher que aparentava ser a mais nova do grupo, enquanto apertava distraída o guardanapo contra o peito. Não, interveio outra, isso não é ser romântico, isso é ser medieval. Um homem romântico apaixona-se por várias mulheres!
Rimos.
Queres reconsiderar a tua opinião?
A que te referes, perguntaste.
Chamares-me playbloy. Acho que agora já sabes o que sou, um romântico!
Deixámos o restaurante de mãos dadas, como dois namorados condenados à amizade.

Gonçalo Cunha de Sá

Monday, October 09, 2006

Serafim, o pastor de sonhos e de esperança

A Lua olha-o como se o visse sempre pela primeira vez, sentado na varanda, de olhos postos no céu. Poisa o queixo sobre a mão e deixa-se embalar pela quietude da noite. Quando volta a abrir os olhos, a Lua estende-lhe um braço de luz sumida que se perde já com o despertar do dia, das pessoas, do barulho.
Chama-se Serafim, como os anjos, e há quem acredite que é pastor de sonhos.
Para Serafim a noite e o dia não são mais do que uma mudança de luz num bailado de sombras. Fecha os olhos sem nunca ficar completamente às escuras e adormece sem nunca dormir realmente. Vê as sombras, de olhos fechados, sem as sentir. Fala com elas e vive as suas histórias no esquecimento do escuro.
É também no escuro que as pessoas o procuram, escondido atrás de uma cortina vermelha sem cor, e confessam os seus sonhos e os seus crimes. De tudo um pouco.
Serafim fecha o seu olhar e ilumina o rosto. Escuta em silêncio. Absorve os segredos com a madeira do cubículo. Se o vissem, diriam que escutava e sorrira com a bondade e inocência próprias das crianças. Mas as palavras passam através dele como se atravessassem um corredor escuro. E regressam num eco silencioso, mais tarde, diluídas nos barulhos, nas incertezas, na procura de razão.
Sempre escuro, onde os rostos se misturam no anonimato. Menos o seu.
Muitos falam simplesmente pela necessidade de se escutarem, mesmo sem serem ouvidos. Muitos outros falam pela insegurança de não serem ouvidos. Alguns para passarem o peso dos seus erros. A ele se dirigem para libertar qualquer coisa. E a todos Serafim escuta, com a serenidade do bom ouvinte que quer ajudar, escondido atrás das suas cortinas vermelhas sem cor. No escuro.
O vento frio desperta-o para uma manhã invernosa. O rasgão de luz por baixo da janela lembra-o que ainda não teve tempo para tapar a frincha antiga, que terá de o fazer antes que o inverno se instale, mais uma vez. Chove.
Que saudades eu tinha de um dia de chuva, diz para si. Abre a janela em par para deixar entrar o pequeno tambor da água no chão, nos telhados, no beiral da sua janela, nas suas mãos. Abre a janela em par. Abre os braços em par. O tamborinho da chuva acalma o seu coração agitado e fala-lhe de um mundo universal, com lugar e esperança para todos. As nuvens desvendam espadas de luz transportadas pela água em riscos de vento. Fica assim durante muito tempo, de braços abertos, o corpo uma barca de luz que ricocheteia a água sem realmente se molhar.
Depois deste dia de chuva nunca mais ninguém viu Serafim.
Contam, quem da rua olhou para a sua janela nesse dia de chuva com espadas de luz, e até quem nunca ali esteve, que tinham visto um anjo abrir em par umas enormes asas e sair pela janela. Dizem também que esse anjo volta todas as noites, sobre formas variadas mas sempre de branco, para ajudar as pessoas a sonhar.
Padre, olhei para uma janela, num dia de chuva, vi um anjo. Tinha umas grandes asas brancas.
Serafim escuta, sentado no seu cubículo atrás da cortina vermelha sem cor, as madeiras gastas de conversas, de medos, de sonhos.


Para o meu amigo Hugo.
Gonçalo Cunha de Sá

Friday, September 22, 2006

A vida ao ar


O largo junto ao farol servia de miradouro. Era também palco de suicídios. A sua mãe, antes dela, também se tinha precipitado, numa queda mais modesta de um primeiro andar, mas que lhe fora fatal.
Na beirinha do miradouro o vento segurava-lhe os cabelos, bem alto como se estivesse já de cabeça para baixo. Lá em baixo o mar rugia. Revolto atirava-se de encontro à rocha, assustava e chamava. Os salpicos ameaçadores da rebentação, no entanto, não chegavam tão alto quanto o miradouro e, na estupidez da força, levantavam-se em rosas de espuma muito branca. Um cenário edílico. Paz. Paz que lhe dava coragem e a convidava, que lhe apaziguava o turbilhão de desilusões e frustrações e derrota.
Desligou o motor do carro. Trazia o rádio desligado, o mundo já não tinha nada para lhe dizer. Deixa as chaves na ignição, tira os sapatos e caminha descalça sobre o cimento do miradouro. Salta o pequeno muro de segurança e caminha sem pressa, arrastando os pés sobre as rochas que a picam e lhe desenham rugas de sangue. Uma parede de vento espreguiça-lhe os cabelos, bem bem alto. Tinha uma cabeleira loira linda. Olha para baixo e mergulha num roseiral de espuma muito branca.
-Mãe!, grita ou suspira ou sussurra. Mãe…
A vida ao ar.
É assim que me lembro dela. O vento já não me traz notícias suas. O vento já não lhe segura os cabelos no alto. O vento continua a soprar, indiferente, como se nunca a tivesse deixado cair.

Gonçalo Cunha de Sá

Tuesday, September 19, 2006

Phoenix

Estou com uma enxaqueca brutal. O médico aconselhou-me a tomar uma aspirina sempre que sentisse o aviso, antes da dor profunda obre o olho esquerdo se instalar. Às vezes fico a ver tudo como antigamente as televisões, com um bocadinho de grão e a preto e branco. Corro a casa desvairado à procura da maldita aspirina. A tradição manda que quando se precisa de alguma coisa não se encontra. E assim é com as aspirinas. Se calhar já as tomei todas...
Bato à porta do vizinho, desculpe, preciso de uma aspirina. Desta vez quem me abre a porta é uma empregada estrangeira. Aspirina americana, não dói estômago, diz. Agradeço, tomo duas e fujo para casa.
Fecho os estores, as luzes eléctricas, o rádio, a minha porta para o mundo e afundo-me na cama.
A vizinha da frente grita com o gato, “Fuinhas, a rasgar o cortinado da dona, gato feio” e pum e um miau e depois fica tudo em silêncio. Adormeço com um amanhã estou melhor no pensamento.
Viajo no tempo para longe do tempo. Como se contam os dias onde o sol não se põe e a lua não se deita?
Do fim do mundo chega uma explosão de cor, asas incandescentes, um cavaleiro que desmonta o seu poderoso corcel, exibindo um estandarte muito grande em tons de terra, ao lado um jardim de esquiços de mulheres, a preto. Foco o preto dos contornos que depressa cresce para tapar todo o espaço do meu olhar. Já não há sol nem lua nem cavaleiro nem estandarte nem nada. Agora é tudo preto. Mas está tudo bem. Não preciso ver porque nada tem forma, nada me barra o caminho e desloco-me em total liberdade. Cai-me um pensamento recorrente nos pesadelos de criança, mas que não dou importância - não sei se estou nu se vestido.
Um colar de escamas de peixe e bagas coloridas rompe a escuridão, ao longe. Arrasta uma figura humana, cabelos compridos cheios de penas. O colar e o esqueleto são de novo engolidos pela escuridão. Não tenhas medo, fala dentro de mim e da minha escuridão. Não sei de onde vem o som nem para onde me virar. Escuro, mais escuro que preto porque vazio.
Pum. Miau. Ai gato malvado que me rasgas a mão, ouço do fundo da minha escuridão, e não é unha mas faca, não sei como posso saber. Começo a acordar para a minha cama, para o meu quarto, para as minhas percianas e cortinados corridos. Pum. Pum pum, oiço agora com toda a nitidez. Que fiz? Aiiiii!
Volto a trancar-me no meu escuro.
Policia, abra!
Batem-me à porta com violência. Levanto-me para abrir.
O senhor tem estado em casa?
Sim, estou deitado. Tenho uma terrível dor de cabeça.
A sua vizinha atirou-se da janela. Sabe de alguma coisa?
Só o que o senhor me está a dizer agora. E lamento. Tinha um gato, penso que era a sua única companhia.
Pois. O gato está morto. Vamos investigar.
Muito bem. Mais alguma coisa? Então bom dia.
Fecho a porta. Já não consigo dormir. Coitada da velhota.
Volto a sentir o peso do traço preto dos contornos dos esquiços de mulheres. E o jardim sou eu, em cores vivas e chamas.
Começo a suspeitar que a empregada do vizinho do lado se enganou na aspirina americana. Que estouro que isto me deu.
Penso ligar-te mas sinto que me andas a evitar. E que te podia dizer? Que preciso de ti? Que a velhota do lado matou a companhia do gato à paulada e se atirou da janela? Que a empregada do vizinho deu cabo de mim com duas aspirinas americanas? Que tenho saudades tuas? Que estou a sair das cinzas e pronto para começar de fresco? Que gostava de te poder dar a mão como os namorados e chamar-te amor mais do que por uma questão de hábito? Que quero ser independente, a dois, contigo?
Grito para dentro de um telefone. Olá, sou eu. Vou ter contigo. Dás-me guarida?
Agora não posso falar, Gonçalinho, deixa ver. Depois ligo com mais calma, está bem?
Desligamos.
Tenho medo que não ligues. E tenho medo de insistir. Sei o peso da tua bagagem, as tuas dúvidas e os teus medos. Gostava de te poder dizer que te ajudo mas sei melhor. É um caminho que tens de fazer por ti, sozinha. Carregas uma cauda de cinzas que te mina a vontade e te enche de incertezas. Quem não a carregou já?
Todos voltamos a reencontrar-nos num sorriso, saberás isso a teu tempo.
Espero que telefones a dizer sim, vem, também preciso estar contigo. Espero.
Entretanto do outro lado da cidade, no teu prédio.
Abra, policia. Tem estado em casa?
Não, cheguei agora.
Sabia que a sua vizinha se tinha atirado da janela?
Acabei de chegar. Sei que a senhora tinha um gato. Era a sua companhia.

Gonçalo Cunha de Sá

Friday, September 15, 2006

Adeus Julieta

Adeus Julieta. Adeus Julietas.
Despeço-me antes de me perder de amores. Despeço-me antes de me prender nos teus olhos castanhos profundos, viciar-me no teu sorriso rasgado e dar tempo às ondas do teu cabelo se entrelaçarem nos meus dedos, aprisionando-me na cumplicidade que tento evitar.
Despeço-me de todas as mulheres que julgo ter amado. Despeço-me do sentimento que invejo antes de o experimentar.
Agora chamo ar ao ar, vento ao vento e a Lua, outrora confidente, já não me guarda segredos.
Sou o rapaz a cheirar a sol que passa com sapatos de vento. Sou o rascunho inacabado da imagem que não vês.
Digo-te adeus antes de te conhecer.
Combino um primeiro encontro junto ao poeta de chapéu de bronze, no Chiado, e digo-te que sou a mesa onde te sentas à espera e o pássaro que levanta vôo quando te aproximas. E tu vais embora chateada. Ou nem apareces.
Sou memória do esquiço de um passo grande, sem direcção. Sou bola de neve e mil ideias de ar.
Temo por ti. Adeus, Julieta.
A vida passa num bater ritmado, incansável e constante. Antes de vivermos já estamos a experimentar memórias, perdidos na leitura da ideia romântica da paixão. Tarde percebemos que a memória é como uma gaivota de madeira pendurada no ramo de um pinheiro por fio de nylon. Os olhos, duas pintas negras cegas e as asas, também pintadas a preto, esbracejam sem sair do lugar.
Falo-te com o nylon encrostado nos pulsos, cheio de tudo ter vivido e tudo me ter passado.
Sou o mágico malabarista cansado de fingir, preso no vício dos truques.
O peixe que nada no aquário encosta os olhos ao vidro, olha-me nos olhos sem medo e convida-me para o seu espaço. E eu sem nada para lhe dizer. Penso entrar no aquário, fazer bolhinhas e colar o olhar ao vidro, a observar a vida à minha volta. Tic tac tic tac tic tac. E eu parado a olhar, na segurança das paredes de vidro do aquário, com as minhas plantas, a minha areia e bolhinhas de ar. Saltos altos desfocados ribombam dentro do nosso aquário, de fora para dentro. Agitam e entoxicam a água. E eu sou culpado por ter olhado e por te arrastar comigo. Gritas-me entre bolhinhas viciadas que o mundo lá fora é grande demais para abraçar todo de uma só vez. Mas tenho de ir. Continuo o rapaz de sapatos de vento e a cheirar a sol, preso na ideia de uma meninice que se vai despedindo sem pressas. Adeus, Julieta.

Gonçalo Cunha de Sá

Thursday, September 14, 2006

O candeeiro, o velho e o carrinho com um saco de lona

Caiu na sarjeta com o estrondo de um corpo morto. Achava que já não tinha nada a perder.
Segurava uma garrafa por encetar. Olhava-a desanimado. Tapou-se com uma manta de ar frio e enroscou-se contra o cimento negro e sujo do chão. Por cima de si, um candeeiro de rua nem baixo nem alto olhava-o com uma luzita tremelicante. Pensava na vida, tinha as ideia avinagradas pelas últimas experiências.
Chorou. Sem soluços, sem gemidos, sem lágrimas.
Um velho que arrastava um carrinho de duas rodas gastas com um saco de lona mais velho que o velho rompeu o silêncio. Percebeu a sua sombra a vasculhar um caixote do lixo do outro lado da rua. O velho riu com a sua descoberta.
Valores trocados, pensou.
Olhou-o. No escuro. Afastou-se sem falar, levando consigo o chiar das roditas do carro até se perder por completo na distancia.
Continuou a chorar, sem soluços, sem gemidos, sem lágrimas.
Não sabia há quanto tempo tinha rendido o seu corpo ao chão frio da rua.
Ouviu as mesmas roditas cansadas do carrinho do velho a cortarem caminho na sua direcção. Abeiraram-se dele e uma voz gasta perguntou – Vais beber isso tudo? Dás um trago aqui ao velho?
Estendeu a garrafa por encetar. Toma, fica com ela.
Sem expressão o velho pegou na garrafa. Atirou ambas as mãos para dentro do saco de lona suja e, passados alguns minutos, produziu um saca-rolhas. Abriu a garrafa com igual calma e deu dois longos tragos. Poisou a garrafa entre os pés e o escuro do cimento, voltou a colocar a rolha, devolveu a garrafa que lhe tinha sido oferecida, pegou no carrito de duas rodas com um saco de lona e afastou-se até se perder com o chiar das roditas na distancia, mais uma vez.
A luz tremelicante do candeeiro bateu no vidro da garrafa e chamou o seu olhar. Só então reparou que o velho do carrinho de duas rodas tirara, de dentro do saco de lona, uma manta que lhe deixara para se tapar.

Gonçalo Cunha de Sá

Lucky Look




Ela. Uma prostituta num bar no Oeste.
Ele. Apelidaram-no de Lucky Look, mas não por ser mais rápido que a própria sombra, como o Lucky Look das histórias aos quadradinhos. Lucky Look porque nunca ninguém lhe vira a sombra. Só era visto à noite e, mesmo aí, só em locais sombrios, escusos e sujos, como o bar de alterne no Oeste, junto à estrada principal, escondido atrás da placa que deseja boas vindas aos forasteiros. Bem vindos ao Oeste, ainda se consegue ler na placa, embora a custo por causa dos escritos, riscos e desenhos dos miúdos. Em cima à direita, uma luz vermelha gasta, muito fixa, segura uma casita pequena, duas ou três janelitas a rasgar umas paredes velhas e sujas. Antes a luz costumava piscar.
Ela e ele eram amigos, embora pouco tivessem para dizer um ao outro.
Ela. Leva-me daqui.
Ele. Um dia levo-te daqui.
Ela contava-lhe histórias dos homens que a visitavam. Tudo mentiras. Gostava de homens poderosos que por vezes lhe batiam. Não gostava, dizia, mas lá ia apanhando os seus tabefes. Era os homens que arranjava, uns pobre coitados. O que tinham em tamanho excediam em insegurança. Ela gabava-se que conseguia ter todos os homens que quisesse, escondendo a sua insegurança na quantidade e variedade. Mas a ele nunca o tivera. Talvez por isso fossem amigos.
Não sendo uma mulher bonita, era vistosa. E desinteressante.
Eles riam das suas conversas parvas e das histórias bizarras que ela inventava. Riam quando se provocavam mutuamente num jogo de sedução que não os ia levar a lado nenhum. Era pelo gozo da provocação.
Um dia levo-te daqui, dizia-lhe. Depois passavam muito tempo sem se verem.
Ele voltava. Ela ainda lá estava. As histórias eram sempre as mesmas.
Um dia ele ofereceu-lhe uma gaiola muito bonita, pequenina, grades muito delicadas e fininhas feitas em madeira escurecida. Colada ao poleiro, uma miniatura em papel e penas de um beija-flor. Cinzento. Como as suas vidas.
Leva-me daqui, pediu-lhe ela.
Ele olhou-a e sorriu. Desta vez não disse nada. Nunca mais.

Gonçalo Cunha de Sá

Sunday, September 10, 2006

Mickey e Minnie


- Pensei que querias gostar de mim.
- Que queres dizer com isso?
- Isso mesmo. Pensei, ou gostava de pensar, que estavas a gostar de mim e nos darias uma oportunidade.
- Não te estou a perceber.
- Também já não gosto de ti.
A chamada caiu, como que por conveniência. Para ambos. Não havia mais nada a dizer. Ele ficou parado durante muito tempo a olhar para o telefone. Talvez tocasse. E se ela ligasse tudo estaria bem de novo. Do outro lado ela também olhava o telefone, imóvel.
Os seus corpos falavam de desejo e saudade. Os seus pensamentos trocavam segredos nunca confessados.
Gostavam um do outro, precisavam ambos de se sentirem amados e ambos tinham muito para dar.
Ele levantou o telefone. Beeeeeeeee, beep beep beep beep. Não lhe podia ligar. Ela não ligava. Ele não percebia se ela também não podia ligar ou se já não queria. Talvez se voltassem a ver.
Ele pensava que a vida era como as histórias dos livros aos quadradinhos. Estava sempre feliz porque acreditava.
Ela deixara-se marcar pela arte da vida. Tinha mais medo de largar, agarrar e acreditar.
Mickey e Minnie viveram felizes para sempre.
The end.

Gonçalo Cunha de Sá
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