Grito Mudo
Escrevo-te. E em cada linha, em cada palavra, dispo uma peça de roupa. E vou escrevendo e falando e despindo-me, até me encontrar completamente nú, sem segredos, sem rodeios, sem mentiras, sem mais palavras.
Bem ao estilo romântico, despeço-me do navio que desafia o horizonte num adeus acenado para a ponte que nos separa. E vejo-te no navio e vejo-me na ponte. E revejo-te na ponte e vejo-me no navio, na impossibilidade de dois caminhos que se pensou serem um.
A noite pôs-se com chuva, humedecendo uns olhos que prometeram não chorar por ti, um olhos presos num aceno sem fim, da ponte para o navio, do navio para a ponte.
Escrevo-te. Já sem palavras. Molho o bico da caneta num tinteiro cheio de ar e risco ondas na folha, balançando o navio e estremecendo a ponte.
Mas nada se altera nunca.
Como um pedido de socorro de fora para dentro, confesso-me em silêncio.
Gonçalo Cunha de Sá


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