Palavras feias
“Palavras feias” também fazem parte do nosso vocabulário. Soam mal e são usadas com frequência desnecessária mas, porque são palavras, têm tanto direito a ser cuspidas e de se fazerem ouvir como outra palavra qualquer.
Estou na praia de Monte Gordo. Ao meu lado uma mãe, uma filha muito boa de monoquini metido mamas ao léu e um irmão. Filhos na casa dos vinte, mãe nova. Usam todos as palavras feias como interjeições, cheios de propriedade, alto como se estivessem sozinhos. E as mamas rijas de bicos rosados chamam os olhares, como se todas as partículas de areia, estrelas luzentes da praia, se juntassem nos biquinhos rosados tesos da loira morena. Bóóoliinhas!, apregoa o homem de cesto cambaleante, arrepia o som e o passo quando toda a areia lhe prende o olhar e se prepara para oferecer uma bolinha de berlim, com creme ou sem creme, oferecer, que o olhar parou com o tempo e o dinheiro, nesse tempo parado, não importa.
A hora de almoço chega a correr. Na praia o tempo continua parado, perdido na conversa de palavras feias e mamas fartas de bicos tesos rosados. A família das palavras feias levanta-se e prepara-se para abandonar a praia. De repente toda a gente percebe que o sol vertical faz mal à pele e preparam-se para sair. Uma miúda com o pai pela mão mordida por peixe aranha enxuga as lágrimas pára para olhar e esquece, como o homem das bolinhas de berlim, olhááa bóóliinha, a picada do peixe bicudo e... foda-se! A praia ficou vazia!


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