Rugas
Tenho saudades de escrever “amo-te”. Tenho saudades congeladas no tempo da imagem também congelada que criei com minúcia, já tão desfazada que quase me imagino a passar por ti distraído. E tenho medo pelas minhas rugas sozinhas junto às outras rugas que também são minhas.
O tempo passa sem ti, sempre sempre sempre.
Disseste que o teu nome era Jack e que namoravas cada ruga da tua mulher, que cresciam contigo e que por isso também eram tuas. Naquele momento senti um enorme respeito pela tua idade, e inveja. Envelhecias com amor, com filhos com netos e tudo.
Avô, ouvi um rapazito de olhos grandes muito azuis chamar-te. E o meu avô morreu há 22 anos. Há 22 anos que me despedi da história do leão e da formiga, da ciagarra do Lafaiette e dos barquinhos de casca de pinheiro que punha a navegar em poças de chuva empurrados pelo vento com uma velinha a dar a dar.
Senta-te ao meu lado no autocarro – peço à Sara. Quero envelhecer os 30 minutos da viagem ao teu lado. Fazemos a viagem sem nos olharmos, sem sequer tentarmos perceber o reflexo um do outro na janela. O nosso silêncio mistura-se com as conversas dos outros passageiros com quem havíamos passado a tarde. A meio da viagem falam de ti. Percebo que o teu nome não é Sara mas sim Vera. E que importância tem um nome? Se de pequenito me chamassem “o dos olhos azuis” seria esse o meu nome, e não seria mais nem menos do que sou hoje. Mas o não saber o teu nome fala de mim. Foi distracção, posso tentar convencer-me. E como penso sozinho falo sozinho, como qualquer pessoa habituada a passar muito tempo sozinha.
Estou a ficar num motel à beira da estrada. Ouvi foguetes o dia todo. Bum bum bum buuum! E ninguém para me dizer se há festa.
Gonaçalo Cunha de Sá


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