Monday, August 28, 2006

Carta ao estilo diario...


Carta ao estilo diário, dia 1


Deito-me com o mar no corpo.
A tua imagem baila nos meus pensamentos embalada pela vontade de estar contigo, abanada pelo desequilíbrio do mar em terra. Estive a trabalhar no mar, a fotografar uma regata. Sete horas sem intervalo, com sol, com vento, com muito vento, com marulhar zangado a enrolar o Zebro para cima e para baixo, para a direita e para a esquerda, e eu convencido de que se esticasse os braços abraçava a linha do horizonte, de tão longe que estava de terra.
O vento a fazer braço de ferro com as longas velas dos barcos e os barcos empurrados com toda a força a cortar a água mais depressa do que os peixes.
Agarro-me à minha cama e penso que também nós, para nos deslocarmos, temos de cortar o ar como os peixes a água, e penso que hoje não, hoje vou ficar bem quietinho na minha cama, tentar não me mexer, fazer as pazes com o mar, estar em paz com a terra e o ar.
“Aquela água corria continuamente, corria sempre mas estava sempre ali, para todo o sempre a mesma e, no entanto, a cada momento nova”! (Hermann Hesse in Siddhartha, um conto indiano)
Em pensamentos abraço a tua imagem esfumada pelo marulhar das ondas agitadas num barco agitado e uns braços também eles agitados que crêem, bem esticados, poder abraçar também a linha do horizonte.


Dia 2

Não procuro palavras para te dizer o que sinto ou o que penso. Só me ia confundir mais ainda. Para explicar teria de equacionar hipóteses, pensar em quente e em frio, em doce e amargo, em bom e em mau, quando todas estas ideias estão sempre dentro de nós. Pensá-las seria remexer as ideias e escolher um resultado, quando também ele já existe, perfeito. Por isso espero.

Gonçalo Sá

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