Thursday, September 14, 2006

Lucky Look




Ela. Uma prostituta num bar no Oeste.
Ele. Apelidaram-no de Lucky Look, mas não por ser mais rápido que a própria sombra, como o Lucky Look das histórias aos quadradinhos. Lucky Look porque nunca ninguém lhe vira a sombra. Só era visto à noite e, mesmo aí, só em locais sombrios, escusos e sujos, como o bar de alterne no Oeste, junto à estrada principal, escondido atrás da placa que deseja boas vindas aos forasteiros. Bem vindos ao Oeste, ainda se consegue ler na placa, embora a custo por causa dos escritos, riscos e desenhos dos miúdos. Em cima à direita, uma luz vermelha gasta, muito fixa, segura uma casita pequena, duas ou três janelitas a rasgar umas paredes velhas e sujas. Antes a luz costumava piscar.
Ela e ele eram amigos, embora pouco tivessem para dizer um ao outro.
Ela. Leva-me daqui.
Ele. Um dia levo-te daqui.
Ela contava-lhe histórias dos homens que a visitavam. Tudo mentiras. Gostava de homens poderosos que por vezes lhe batiam. Não gostava, dizia, mas lá ia apanhando os seus tabefes. Era os homens que arranjava, uns pobre coitados. O que tinham em tamanho excediam em insegurança. Ela gabava-se que conseguia ter todos os homens que quisesse, escondendo a sua insegurança na quantidade e variedade. Mas a ele nunca o tivera. Talvez por isso fossem amigos.
Não sendo uma mulher bonita, era vistosa. E desinteressante.
Eles riam das suas conversas parvas e das histórias bizarras que ela inventava. Riam quando se provocavam mutuamente num jogo de sedução que não os ia levar a lado nenhum. Era pelo gozo da provocação.
Um dia levo-te daqui, dizia-lhe. Depois passavam muito tempo sem se verem.
Ele voltava. Ela ainda lá estava. As histórias eram sempre as mesmas.
Um dia ele ofereceu-lhe uma gaiola muito bonita, pequenina, grades muito delicadas e fininhas feitas em madeira escurecida. Colada ao poleiro, uma miniatura em papel e penas de um beija-flor. Cinzento. Como as suas vidas.
Leva-me daqui, pediu-lhe ela.
Ele olhou-a e sorriu. Desta vez não disse nada. Nunca mais.

Gonçalo Cunha de Sá

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