Adeus Julieta
Despeço-me antes de me perder de amores. Despeço-me antes de me prender nos teus olhos castanhos profundos, viciar-me no teu sorriso rasgado e dar tempo às ondas do teu cabelo se entrelaçarem nos meus dedos, aprisionando-me na cumplicidade que tento evitar.
Despeço-me de todas as mulheres que julgo ter amado. Despeço-me do sentimento que invejo antes de o experimentar.
Agora chamo ar ao ar, vento ao vento e a Lua, outrora confidente, já não me guarda segredos.
Sou o rapaz a cheirar a sol que passa com sapatos de vento. Sou o rascunho inacabado da imagem que não vês.
Digo-te adeus antes de te conhecer.
Combino um primeiro encontro junto ao poeta de chapéu de bronze, no Chiado, e digo-te que sou a mesa onde te sentas à espera e o pássaro que levanta vôo quando te aproximas. E tu vais embora chateada. Ou nem apareces.
Sou memória do esquiço de um passo grande, sem direcção. Sou bola de neve e mil ideias de ar.
Temo por ti. Adeus, Julieta.
A vida passa num bater ritmado, incansável e constante. Antes de vivermos já estamos a experimentar memórias, perdidos na leitura da ideia romântica da paixão. Tarde percebemos que a memória é como uma gaivota de madeira pendurada no ramo de um pinheiro por fio de nylon. Os olhos, duas pintas negras cegas e as asas, também pintadas a preto, esbracejam sem sair do lugar.
Falo-te com o nylon encrostado nos pulsos, cheio de tudo ter vivido e tudo me ter passado.
Sou o mágico malabarista cansado de fingir, preso no vício dos truques.
O peixe que nada no aquário encosta os olhos ao vidro, olha-me nos olhos sem medo e convida-me para o seu espaço. E eu sem nada para lhe dizer. Penso entrar no aquário, fazer bolhinhas e colar o olhar ao vidro, a observar a vida à minha volta. Tic tac tic tac tic tac. E eu parado a olhar, na segurança das paredes de vidro do aquário, com as minhas plantas, a minha areia e bolhinhas de ar. Saltos altos desfocados ribombam dentro do nosso aquário, de fora para dentro. Agitam e entoxicam a água. E eu sou culpado por ter olhado e por te arrastar comigo. Gritas-me entre bolhinhas viciadas que o mundo lá fora é grande demais para abraçar todo de uma só vez. Mas tenho de ir. Continuo o rapaz de sapatos de vento e a cheirar a sol, preso na ideia de uma meninice que se vai despedindo sem pressas. Adeus, Julieta.
Gonçalo Cunha de Sá


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