Thursday, September 14, 2006

O candeeiro, o velho e o carrinho com um saco de lona

Caiu na sarjeta com o estrondo de um corpo morto. Achava que já não tinha nada a perder.
Segurava uma garrafa por encetar. Olhava-a desanimado. Tapou-se com uma manta de ar frio e enroscou-se contra o cimento negro e sujo do chão. Por cima de si, um candeeiro de rua nem baixo nem alto olhava-o com uma luzita tremelicante. Pensava na vida, tinha as ideia avinagradas pelas últimas experiências.
Chorou. Sem soluços, sem gemidos, sem lágrimas.
Um velho que arrastava um carrinho de duas rodas gastas com um saco de lona mais velho que o velho rompeu o silêncio. Percebeu a sua sombra a vasculhar um caixote do lixo do outro lado da rua. O velho riu com a sua descoberta.
Valores trocados, pensou.
Olhou-o. No escuro. Afastou-se sem falar, levando consigo o chiar das roditas do carro até se perder por completo na distancia.
Continuou a chorar, sem soluços, sem gemidos, sem lágrimas.
Não sabia há quanto tempo tinha rendido o seu corpo ao chão frio da rua.
Ouviu as mesmas roditas cansadas do carrinho do velho a cortarem caminho na sua direcção. Abeiraram-se dele e uma voz gasta perguntou – Vais beber isso tudo? Dás um trago aqui ao velho?
Estendeu a garrafa por encetar. Toma, fica com ela.
Sem expressão o velho pegou na garrafa. Atirou ambas as mãos para dentro do saco de lona suja e, passados alguns minutos, produziu um saca-rolhas. Abriu a garrafa com igual calma e deu dois longos tragos. Poisou a garrafa entre os pés e o escuro do cimento, voltou a colocar a rolha, devolveu a garrafa que lhe tinha sido oferecida, pegou no carrito de duas rodas com um saco de lona e afastou-se até se perder com o chiar das roditas na distancia, mais uma vez.
A luz tremelicante do candeeiro bateu no vidro da garrafa e chamou o seu olhar. Só então reparou que o velho do carrinho de duas rodas tirara, de dentro do saco de lona, uma manta que lhe deixara para se tapar.

Gonçalo Cunha de Sá

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