Tuesday, September 19, 2006

Phoenix

Estou com uma enxaqueca brutal. O médico aconselhou-me a tomar uma aspirina sempre que sentisse o aviso, antes da dor profunda obre o olho esquerdo se instalar. Às vezes fico a ver tudo como antigamente as televisões, com um bocadinho de grão e a preto e branco. Corro a casa desvairado à procura da maldita aspirina. A tradição manda que quando se precisa de alguma coisa não se encontra. E assim é com as aspirinas. Se calhar já as tomei todas...
Bato à porta do vizinho, desculpe, preciso de uma aspirina. Desta vez quem me abre a porta é uma empregada estrangeira. Aspirina americana, não dói estômago, diz. Agradeço, tomo duas e fujo para casa.
Fecho os estores, as luzes eléctricas, o rádio, a minha porta para o mundo e afundo-me na cama.
A vizinha da frente grita com o gato, “Fuinhas, a rasgar o cortinado da dona, gato feio” e pum e um miau e depois fica tudo em silêncio. Adormeço com um amanhã estou melhor no pensamento.
Viajo no tempo para longe do tempo. Como se contam os dias onde o sol não se põe e a lua não se deita?
Do fim do mundo chega uma explosão de cor, asas incandescentes, um cavaleiro que desmonta o seu poderoso corcel, exibindo um estandarte muito grande em tons de terra, ao lado um jardim de esquiços de mulheres, a preto. Foco o preto dos contornos que depressa cresce para tapar todo o espaço do meu olhar. Já não há sol nem lua nem cavaleiro nem estandarte nem nada. Agora é tudo preto. Mas está tudo bem. Não preciso ver porque nada tem forma, nada me barra o caminho e desloco-me em total liberdade. Cai-me um pensamento recorrente nos pesadelos de criança, mas que não dou importância - não sei se estou nu se vestido.
Um colar de escamas de peixe e bagas coloridas rompe a escuridão, ao longe. Arrasta uma figura humana, cabelos compridos cheios de penas. O colar e o esqueleto são de novo engolidos pela escuridão. Não tenhas medo, fala dentro de mim e da minha escuridão. Não sei de onde vem o som nem para onde me virar. Escuro, mais escuro que preto porque vazio.
Pum. Miau. Ai gato malvado que me rasgas a mão, ouço do fundo da minha escuridão, e não é unha mas faca, não sei como posso saber. Começo a acordar para a minha cama, para o meu quarto, para as minhas percianas e cortinados corridos. Pum. Pum pum, oiço agora com toda a nitidez. Que fiz? Aiiiii!
Volto a trancar-me no meu escuro.
Policia, abra!
Batem-me à porta com violência. Levanto-me para abrir.
O senhor tem estado em casa?
Sim, estou deitado. Tenho uma terrível dor de cabeça.
A sua vizinha atirou-se da janela. Sabe de alguma coisa?
Só o que o senhor me está a dizer agora. E lamento. Tinha um gato, penso que era a sua única companhia.
Pois. O gato está morto. Vamos investigar.
Muito bem. Mais alguma coisa? Então bom dia.
Fecho a porta. Já não consigo dormir. Coitada da velhota.
Volto a sentir o peso do traço preto dos contornos dos esquiços de mulheres. E o jardim sou eu, em cores vivas e chamas.
Começo a suspeitar que a empregada do vizinho do lado se enganou na aspirina americana. Que estouro que isto me deu.
Penso ligar-te mas sinto que me andas a evitar. E que te podia dizer? Que preciso de ti? Que a velhota do lado matou a companhia do gato à paulada e se atirou da janela? Que a empregada do vizinho deu cabo de mim com duas aspirinas americanas? Que tenho saudades tuas? Que estou a sair das cinzas e pronto para começar de fresco? Que gostava de te poder dar a mão como os namorados e chamar-te amor mais do que por uma questão de hábito? Que quero ser independente, a dois, contigo?
Grito para dentro de um telefone. Olá, sou eu. Vou ter contigo. Dás-me guarida?
Agora não posso falar, Gonçalinho, deixa ver. Depois ligo com mais calma, está bem?
Desligamos.
Tenho medo que não ligues. E tenho medo de insistir. Sei o peso da tua bagagem, as tuas dúvidas e os teus medos. Gostava de te poder dizer que te ajudo mas sei melhor. É um caminho que tens de fazer por ti, sozinha. Carregas uma cauda de cinzas que te mina a vontade e te enche de incertezas. Quem não a carregou já?
Todos voltamos a reencontrar-nos num sorriso, saberás isso a teu tempo.
Espero que telefones a dizer sim, vem, também preciso estar contigo. Espero.
Entretanto do outro lado da cidade, no teu prédio.
Abra, policia. Tem estado em casa?
Não, cheguei agora.
Sabia que a sua vizinha se tinha atirado da janela?
Acabei de chegar. Sei que a senhora tinha um gato. Era a sua companhia.

Gonçalo Cunha de Sá

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