A vida ao ar

O largo junto ao farol servia de miradouro. Era também palco de suicídios. A sua mãe, antes dela, também se tinha precipitado, numa queda mais modesta de um primeiro andar, mas que lhe fora fatal.
Na beirinha do miradouro o vento segurava-lhe os cabelos, bem alto como se estivesse já de cabeça para baixo. Lá em baixo o mar rugia. Revolto atirava-se de encontro à rocha, assustava e chamava. Os salpicos ameaçadores da rebentação, no entanto, não chegavam tão alto quanto o miradouro e, na estupidez da força, levantavam-se em rosas de espuma muito branca. Um cenário edílico. Paz. Paz que lhe dava coragem e a convidava, que lhe apaziguava o turbilhão de desilusões e frustrações e derrota.
Desligou o motor do carro. Trazia o rádio desligado, o mundo já não tinha nada para lhe dizer. Deixa as chaves na ignição, tira os sapatos e caminha descalça sobre o cimento do miradouro. Salta o pequeno muro de segurança e caminha sem pressa, arrastando os pés sobre as rochas que a picam e lhe desenham rugas de sangue. Uma parede de vento espreguiça-lhe os cabelos, bem bem alto. Tinha uma cabeleira loira linda. Olha para baixo e mergulha num roseiral de espuma muito branca.
-Mãe!, grita ou suspira ou sussurra. Mãe…
A vida ao ar.
É assim que me lembro dela. O vento já não me traz notícias suas. O vento já não lhe segura os cabelos no alto. O vento continua a soprar, indiferente, como se nunca a tivesse deixado cair.
Gonçalo Cunha de Sá


1 Comments:
UM REGRESSO EM GRANDE...COMO SEMPRE!
ATÉ BREVE.
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