Monday, October 09, 2006

Serafim, o pastor de sonhos e de esperança

A Lua olha-o como se o visse sempre pela primeira vez, sentado na varanda, de olhos postos no céu. Poisa o queixo sobre a mão e deixa-se embalar pela quietude da noite. Quando volta a abrir os olhos, a Lua estende-lhe um braço de luz sumida que se perde já com o despertar do dia, das pessoas, do barulho.
Chama-se Serafim, como os anjos, e há quem acredite que é pastor de sonhos.
Para Serafim a noite e o dia não são mais do que uma mudança de luz num bailado de sombras. Fecha os olhos sem nunca ficar completamente às escuras e adormece sem nunca dormir realmente. Vê as sombras, de olhos fechados, sem as sentir. Fala com elas e vive as suas histórias no esquecimento do escuro.
É também no escuro que as pessoas o procuram, escondido atrás de uma cortina vermelha sem cor, e confessam os seus sonhos e os seus crimes. De tudo um pouco.
Serafim fecha o seu olhar e ilumina o rosto. Escuta em silêncio. Absorve os segredos com a madeira do cubículo. Se o vissem, diriam que escutava e sorrira com a bondade e inocência próprias das crianças. Mas as palavras passam através dele como se atravessassem um corredor escuro. E regressam num eco silencioso, mais tarde, diluídas nos barulhos, nas incertezas, na procura de razão.
Sempre escuro, onde os rostos se misturam no anonimato. Menos o seu.
Muitos falam simplesmente pela necessidade de se escutarem, mesmo sem serem ouvidos. Muitos outros falam pela insegurança de não serem ouvidos. Alguns para passarem o peso dos seus erros. A ele se dirigem para libertar qualquer coisa. E a todos Serafim escuta, com a serenidade do bom ouvinte que quer ajudar, escondido atrás das suas cortinas vermelhas sem cor. No escuro.
O vento frio desperta-o para uma manhã invernosa. O rasgão de luz por baixo da janela lembra-o que ainda não teve tempo para tapar a frincha antiga, que terá de o fazer antes que o inverno se instale, mais uma vez. Chove.
Que saudades eu tinha de um dia de chuva, diz para si. Abre a janela em par para deixar entrar o pequeno tambor da água no chão, nos telhados, no beiral da sua janela, nas suas mãos. Abre a janela em par. Abre os braços em par. O tamborinho da chuva acalma o seu coração agitado e fala-lhe de um mundo universal, com lugar e esperança para todos. As nuvens desvendam espadas de luz transportadas pela água em riscos de vento. Fica assim durante muito tempo, de braços abertos, o corpo uma barca de luz que ricocheteia a água sem realmente se molhar.
Depois deste dia de chuva nunca mais ninguém viu Serafim.
Contam, quem da rua olhou para a sua janela nesse dia de chuva com espadas de luz, e até quem nunca ali esteve, que tinham visto um anjo abrir em par umas enormes asas e sair pela janela. Dizem também que esse anjo volta todas as noites, sobre formas variadas mas sempre de branco, para ajudar as pessoas a sonhar.
Padre, olhei para uma janela, num dia de chuva, vi um anjo. Tinha umas grandes asas brancas.
Serafim escuta, sentado no seu cubículo atrás da cortina vermelha sem cor, as madeiras gastas de conversas, de medos, de sonhos.


Para o meu amigo Hugo.
Gonçalo Cunha de Sá

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