Friday, July 21, 2006

Ouvir o incenso

O homem santo diz "sou culpado pelo mal que fizeste".




Despede-te da pessoa que eras

Schhhhh, silêncio - sussurra o guia sherpa. Coloca a sétima pedra naquele monte além e faz a tua oração. Sempre em silêncio liberta-te do peso da caminhada e despede-te de ti, da pessoa que eras.
Sinto um riso sem palavras rasgar-me os lábios e rio desalmadamente, de fora para dentro, um riso de todos.
Foco o silêncio como me foi indicado, encho-me de pássaros e corto o ar que separa os cumes das montanhas. A pairar comigo, os mantras, homms e mensagens de sorte e esperança assobiadas pelas prayer flags.
Ninguém me vai acreditar, penso, mas que interessa? A montanha fala comigo no à vontade do tu cá tu lá até falar de mim para mim.
Em silêncio sinto o peso de cada pé que luta para me subir, cada lágrima, cada grito de vitória, cada batida acelerada de cada coração que ainda não conheceu o seu limite. E rio com todos eles.
Num voto de reconhecimento e humildade coloco a minha sétima pedra que havia carregado na mochila e em silêncio faço a minha oração.

Gonçalo Cunha de Sá

Saturday, July 15, 2006

Rugas

Rugas

Tenho saudades de escrever “amo-te”. Tenho saudades congeladas no tempo da imagem também congelada que criei com minúcia, já tão desfazada que quase me imagino a passar por ti distraído. E tenho medo pelas minhas rugas sozinhas junto às outras rugas que também são minhas.
O tempo passa sem ti, sempre sempre sempre.
Disseste que o teu nome era Jack e que namoravas cada ruga da tua mulher, que cresciam contigo e que por isso também eram tuas. Naquele momento senti um enorme respeito pela tua idade, e inveja. Envelhecias com amor, com filhos com netos e tudo.
Avô, ouvi um rapazito de olhos grandes muito azuis chamar-te. E o meu avô morreu há 22 anos. Há 22 anos que me despedi da história do leão e da formiga, da ciagarra do Lafaiette e dos barquinhos de casca de pinheiro que punha a navegar em poças de chuva empurrados pelo vento com uma velinha a dar a dar.
Senta-te ao meu lado no autocarro – peço à Sara. Quero envelhecer os 30 minutos da viagem ao teu lado. Fazemos a viagem sem nos olharmos, sem sequer tentarmos perceber o reflexo um do outro na janela. O nosso silêncio mistura-se com as conversas dos outros passageiros com quem havíamos passado a tarde. A meio da viagem falam de ti. Percebo que o teu nome não é Sara mas sim Vera. E que importância tem um nome? Se de pequenito me chamassem “o dos olhos azuis” seria esse o meu nome, e não seria mais nem menos do que sou hoje. Mas o não saber o teu nome fala de mim. Foi distracção, posso tentar convencer-me. E como penso sozinho falo sozinho, como qualquer pessoa habituada a passar muito tempo sozinha.
Estou a ficar num motel à beira da estrada. Ouvi foguetes o dia todo. Bum bum bum buuum! E ninguém para me dizer se há festa.

Gonaçalo Cunha de Sá

Friday, July 07, 2006

A quem possa interessar

A quem possa interessar


Um amigo, em conversa, perguntou-me “quem és? E que procuras?”
Lembrei-me do poeta que, bem ao seu estilo, se encontrava no “Nicola” e confessou o seu receio, em tom de gracejo, de ir para outro mundo “se disparas essa pistola”.
Mas afinal quem sou?
A resposta depende de quem quer saber.
Sou um bom ouvinte, sou um sonhador, sou um romântico, sou um bom amigo, sou um artista que tenta viver com arte. Ou sou simplesmente o Gonçalo, fotógrafo. Depende de quem quer saber.
Para ti, meu amigo, sou um bom amigo.
O que procuro? Ser um Homem Novo, quem sabe aprender a comunicar sem palavras, levitar distraído e rodear-me de quem me quer bem.
O que espero? Nunca conhecer os meus limites!

Gonçalo Cunha de Sá
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