Thursday, August 31, 2006

Pântano de cabelos brancos











Acordo com medo dos cabelos brancos.
Não é a melhor maneira de acordar, sob as badaladas pesadas do relógio do capitão James Hook. Um raio de luz acende as lombadas da colecção do Sandokan, “o tigre de Momparacem”. Esboço um sorriso tímido, na dúvida se estava a ser lembrado que temos sempre uma criança em nós, ciosa de aventura, ou se foi um acaso infeliz que me veio lembrar de livros e histórias que não vivo há já… Que interessam os anos? Há algum tempo.
Decido sair e perceber a velhice fora das minhas paredes. Máquina fotográfica em riste e caderno para escrevinhar as minhas notas, parto nesta assustadora emenda. Assustadora sim, que o medo existe em proporções diferentes para cada um de nós e, como é nosso, pode ser maior, menor ou até ultrapassado. Não sei o que me espera, mas tenho uma ideia do que vou procurar: envelhecer, em casa na rua por dentro por fora cabelos brancos careca papos e rugas. Saio.
Chego ao café e peço “um cheio”. O senhor na mesa ao lado, que chega ao mesmo tempo que eu, pede “um pingado”. Faz-me sempre pensar em nódoas. Agora mais ainda, nódoas e mãos trémulas e o ensurdecedor crepitar da chávena a dançar no pires.
Podia acender um pensativo cigarro e fingir-me de ares intelectuais, com caderno de notas aberto à frente do nariz. Felizmente deixei de fumar há mais de dois anos. Solução: roer a tampa da Bic, franzir o sobrolho, mirar de frente e beber o café de costas muito direitas.
Mas vamos aos velhos, que foi isso que me fez sair de casa.
Considerações gerais sobre o envelhecimento:
1. Envelhecer é sinal de estar vivo;
2. É condição inabalável, e quadros do Dorian Gray só mesmo nas histórias;
3. Envelhecer é tirar a chucha e ir para a escola, largar os livros e ir para o escritório, talvez casar e ter filhos, chegar a casa tomar chá bem quentinho e sentar no sofá a ver o noticiário com uma mantinha nos joelhos.
Mas envelhecer não é igual para todos. Há os homens e as mulheres, as peles caídas e o charme – que ilusão! Há também os velhos ricos, os velhos pobres e os velhos remediados. Os velhos ricos sentam-se à lareira, ligam o plasma para ver o noticiário e bebem chá de ervas em chávenas Blue Canton da Vista Alegre. Os velhos remediados – talvez a esmagadora maioria – puxam o braseirinho para junto dos pés, acendem o televisor com o volume quase no máximo – os ouvidos já não são o que eram – cobrem os joelhos com a mantinha coçada e, quando há, bebem cházinho de ervas em chávenas compradas no supermercado mais próximo. E depois há os velhos pobres, que ficam o dia todo na tasca e jogam às cartas com cogumelos de fumo por cima das cabeças. É lá também que vêem o noticiário. Mas todos têm pelo menos uma coisa ou duas em comum: a idade, as recordações e a crítica acesa às notícias que mal ouvem, ou se dão oportunidade de ouvir, no noticiário. Nota que não fiz destrinça entre os velhos da cidade e os velhos da aldeia. Há de facto diferenças mas, na realidade, diluem-se nos bairros (também eles velhos) das cidades, que funcionam como pequenas aldeias dentro das cidades: a mercearia, o café de esquina, o barbeiro, o gato da Dona Rosinha e o senhor João que vende a fruta no carrinho. Todos eles se conhecem e se tratam por tu.
O meu pai disse-me uma vez que a ideia da “idade” se vai adaptando à medida que os anos passam. Ora aqui temos uma atitude jovem e que nos ajuda a prolongar a juventude. Trinta anos? Epá, isso já é um gajo meio velho, pensava eu quando contava ainda só metade. Na casa dos vintes, os trinta são um marco importante. Deixa-se definitivamente para trás a meninice para se entrar nos “intas”, a passos largos e acelerados para os “entas”. Ainda há pouco tempo a minha namorada me perguntou, estando nós próximos da data do seu aniversário, se me lembrava dos anos que ia fazer. Agora que penso nisso, acredito que tenha sido mais uma chamada de atenção para o “relógio biológico”, aquele tic tac que puxa decisões precipitadas e envelhecimento precoce.
Voltando à conversa que tive com o meu pai sobre a idade, sou forçado a perceber e aceitar a força do seu argumento: a velhice está sempre um passo à frente. Para mim certamente está, que tenho um medo de envelhecer que me pelo! O mesmo, creio, não se passará com as mulheres depois dos trinta. Vamos então às entrevistas, onde as perguntas têm de ser bem estudadas uma vez que a natureza das mesmas é muito delicada… Afinal, não se deve (ou não se pode!) perguntar a idade a uma senhora. Devo ter aprendido esta regra pouco depois de ter sido treinado para agradecer sempre que me davam um presente, gostasse eu ou não do dito.
Lembro o meu despertar sobressaltado desta manhã, a afogar-me num pântano de cabelos brancos. É coisa de meter medo, a idade. Já na rua vou ensaiando baixinho perguntas e formas de abordar as pessoas: “Bom dia, que lindo dia! Quantas Primaveras conta a senhora? Pois…. E que acha de envelhecer? É uma porra, não é?”, ou então: “Olá amigo, bom dia. Tá frio que dói, não é verdade? Isto na sua altura também era assim? E há quanto tempo foi isso?”
Aproximo-me da minha primeira vítima – ou objecto de estudo? Levo um bloco de notas e um pequeno gravador para dar um ar mais profissional e sério.
….
Aqui vão alguns excertos da primeira entrevista:
- Senhor Zé do monte (mas não nasceu no monte, como explicou)
- Idade e estado civil: 78 anos, casado
- Zona: bairro em Lisboa
“Isto já nã é como era dantes (comentário clássico, que não traz nada de novo). Já nã temos estações. Ele faz frio ou muito calor, nã chove, estraga tudo. Tudo mirrado, mais que eu. Que ainda funciona. Não é quando eu quero mas… (faz movimento com o braço, de cima para caído, em baixo) Setenta e oito, já é um número, não acha? Envelhecer? Qué que se há de fazer? Haja saúde. A minha mulher é que se faz de velha. Já só atira os olhos prá rua e, com frio, só de janela fechada! Meu amigo, você é jovem. Quantos são? Ai quem me dera! Também já tive a minha dose. Mas nã me perco demais nas recordações que isso é parar e acabo na janela com a minha Maria”.

Peço para falar com a mulher, depois de quase trinta minutos de corda solta.
Em casa, a Dona Juvelina, que já saltou a barreira dos oitenta, na qual deve ter tropeçado (coitada) e ganho uma marreca e uma bengala com a qual não se ajeita, é uma daquelas velhinhas muito simpáticas e faladoras com cara de avó. Depressa se mostra uma explosão de energia meia castrada pela marreca.

- Dona Juvelina, mulher do Zé do monte
- Idade: 82 anos (vai fazer 83)
É quem dá fé e troca as lâmpadas estragadas dos candeeiros. Cozinha, lava a loiça. Faz bordados à janela depois de arrumar a cozinha. Conversa com as vizinhas. Não gosta dos programas da televisão. Lê pouco porque lhe cansa a vista (os livros têm letras muito pequeninas). Tem uma filha, “solteirona”, que é quem lhes faz as compras.

Despeço-me e saio de nariz no ar à procura do envelhecimento. Mais uma dúzia de entrevistados e, de saco cheio de apontamentos, sento-me para tirar conclusões:

1. Todas as idades são bonitas e têm a sua magia (mais um daqueles chavões clássicos);
2. Em boa verdade quase todos gostavam de ter 30 anos mas não gostavam de voltar para trás (tenho que rever esta conclusão);
3. A juventude está na alma;
4. Namoro não tem idade (ideia que muito me tranquilizou).

Este dia deu para perceber que “velhos são os trapos!” (esta frase não é minha, é da autoria de uma empregada que os meus pais tinham quando eu era miúdo e que eu já achava velhota. Percebo hoje como a Senhora Argentina era nova e cheia de vida! Que saudades!)
Conheci velhos velhos, velhos novos, novos velhos (que assustador!) e… maduros. Os maduros serão todos aqueles que, já com algum conhecimento e experiência em carteira, não correm à mesma velocidade que a carroçaria. Todos temos um velho e um novo às turras dentro e fora do nosso corpo, e só a nós cabe decidir qual deles tem mais peso. Pelo sim pelo não, acho que vou arrancar os cabelos brancos e, se os próximos que vierem insistirem em manter o desbotado, dou-lhes com um champô colorido.

Gonçalo Cunha de Sá

Monday, August 28, 2006

Carta ao estilo diario...


Carta ao estilo diário, dia 1


Deito-me com o mar no corpo.
A tua imagem baila nos meus pensamentos embalada pela vontade de estar contigo, abanada pelo desequilíbrio do mar em terra. Estive a trabalhar no mar, a fotografar uma regata. Sete horas sem intervalo, com sol, com vento, com muito vento, com marulhar zangado a enrolar o Zebro para cima e para baixo, para a direita e para a esquerda, e eu convencido de que se esticasse os braços abraçava a linha do horizonte, de tão longe que estava de terra.
O vento a fazer braço de ferro com as longas velas dos barcos e os barcos empurrados com toda a força a cortar a água mais depressa do que os peixes.
Agarro-me à minha cama e penso que também nós, para nos deslocarmos, temos de cortar o ar como os peixes a água, e penso que hoje não, hoje vou ficar bem quietinho na minha cama, tentar não me mexer, fazer as pazes com o mar, estar em paz com a terra e o ar.
“Aquela água corria continuamente, corria sempre mas estava sempre ali, para todo o sempre a mesma e, no entanto, a cada momento nova”! (Hermann Hesse in Siddhartha, um conto indiano)
Em pensamentos abraço a tua imagem esfumada pelo marulhar das ondas agitadas num barco agitado e uns braços também eles agitados que crêem, bem esticados, poder abraçar também a linha do horizonte.


Dia 2

Não procuro palavras para te dizer o que sinto ou o que penso. Só me ia confundir mais ainda. Para explicar teria de equacionar hipóteses, pensar em quente e em frio, em doce e amargo, em bom e em mau, quando todas estas ideias estão sempre dentro de nós. Pensá-las seria remexer as ideias e escolher um resultado, quando também ele já existe, perfeito. Por isso espero.

Gonçalo Sá
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