Tuesday, June 27, 2006

Palavras feias

Palavras feias

“Palavras feias” também fazem parte do nosso vocabulário. Soam mal e são usadas com frequência desnecessária mas, porque são palavras, têm tanto direito a ser cuspidas e de se fazerem ouvir como outra palavra qualquer.
Estou na praia de Monte Gordo. Ao meu lado uma mãe, uma filha muito boa de monoquini metido mamas ao léu e um irmão. Filhos na casa dos vinte, mãe nova. Usam todos as palavras feias como interjeições, cheios de propriedade, alto como se estivessem sozinhos. E as mamas rijas de bicos rosados chamam os olhares, como se todas as partículas de areia, estrelas luzentes da praia, se juntassem nos biquinhos rosados tesos da loira morena. Bóóoliinhas!, apregoa o homem de cesto cambaleante, arrepia o som e o passo quando toda a areia lhe prende o olhar e se prepara para oferecer uma bolinha de berlim, com creme ou sem creme, oferecer, que o olhar parou com o tempo e o dinheiro, nesse tempo parado, não importa.
A hora de almoço chega a correr. Na praia o tempo continua parado, perdido na conversa de palavras feias e mamas fartas de bicos tesos rosados. A família das palavras feias levanta-se e prepara-se para abandonar a praia. De repente toda a gente percebe que o sol vertical faz mal à pele e preparam-se para sair. Uma miúda com o pai pela mão mordida por peixe aranha enxuga as lágrimas pára para olhar e esquece, como o homem das bolinhas de berlim, olhááa bóóliinha, a picada do peixe bicudo e... foda-se! A praia ficou vazia!

Gonçalo Cunha de Sá

Wednesday, June 14, 2006

Grito Mudo

Grito mudo

Escrevo-te. E em cada linha, em cada palavra, dispo uma peça de roupa. E vou escrevendo e falando e despindo-me, até me encontrar completamente nú, sem segredos, sem rodeios, sem mentiras, sem mais palavras.
Bem ao estilo romântico, despeço-me do navio que desafia o horizonte num adeus acenado para a ponte que nos separa. E vejo-te no navio e vejo-me na ponte. E revejo-te na ponte e vejo-me no navio, na impossibilidade de dois caminhos que se pensou serem um.
A noite pôs-se com chuva, humedecendo uns olhos que prometeram não chorar por ti, um olhos presos num aceno sem fim, da ponte para o navio, do navio para a ponte.
Escrevo-te. Já sem palavras. Molho o bico da caneta num tinteiro cheio de ar e risco ondas na folha, balançando o navio e estremecendo a ponte.
Mas nada se altera nunca.
Como um pedido de socorro de fora para dentro, confesso-me em silêncio.

Gonçalo Cunha de Sá

Tuesday, June 06, 2006

O canto do homem triste

O canto do Homem triste

O homem triste acordou da ilusão da viagem a dois. Caminha com um saco cheio de ontem e sente-se triste.
Como os pescadores se perdem no mar atrás do canto das sereias - o canto dos defuntos - o homem triste perde-se para lá do horizonte, atrás do medo da certeza de estar só.
O canto do homem triste não tem fronteiras, não tem espaço a medir, não tem paredes para ricochetear respostas e fingir alguém que não está.
Viaja e as viagens dão-lhe a companhia da desculpa de estar só por opção. Vive experiências de beleza única e caminha com a graça da independência, cheio de uma riqueza não palpável. Mas o homem triste está preso para lá do horizonte e vive na corrente de ar que foge das portas e das janelas dos outros.
O homem triste está só.















texto e ilustração: Gonçalo Cunha de Sá
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